domingo, 21 de agosto de 2011

Se ...


Se Goethe tivesse que preparar o jantar e temperar os pudins;
Se Schiller tivesse que lavar os pratos;
Se  Heine tivesse que remendar a roupa rasgada, limpar os quartos e matar os percevejos ...
Oh! Os homens, nenhum deles,  se teriam tornado grandes poetas.


Assim reza esta placa, citando Emerenz Meier, filha de um estalajadeiro, nascida a 3 de Outubro de 1874,
em Schiefweg, na floresta bávara.
Tornou-se conhecida para além dos limites regionais, através das suas narrativas e poemas.
Em 1902/3, foi proprietária do pub para artistas " Zum Koppen Jaeger ", localizado em Braugasse, Passau.
Por razões económicas, acompanhou a família que emigrou para Chicago, em 1906.
Aí, casou duas vezes, tendo tido um filho, fruto do primeiro casamento.
O trabalho artístico da poetisa foi prejudicado pelas condições económicas difíceis que enfrentava para se sustentar.
Emeren Meier morreu a 28 de Fevereiro, em Chicago.


O seu busto, bem como a placa que traduzi, perpetuam a sua memória nas margens do rio Danúbio, na encantadora cidade de Passau.
A sua visão progressista sobre a sociedade em que vivia, transformaram-na num ícone, voz da denúncia e revolta feminina, face a uma situação secundária vivida pela mulher.

Pena que tão pouco tenha mudado em tanto tempo.

Beijos,
Nina

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Os pilares da terra ...

A obra notável de Ken Follet, desenvolve-se na Idade Média, essencialmente na Grã-Bretanha, sendo o seu fio condutor a construção de uma catedral, melhor, da Catedral, aquela que haveria de ser a mais imponente, a de mais improvável realização, a mais utópica, cuja torre, pela sua desmesurada altura, seria avistada de qualquer parte do reino.
Foi, seguramente, uma obra que li com muito interesse, que, certos trechos, devorei com avidez, que recomendo com o maior entusiasmo e que, me abriu uma janela de profunda curiosidade perante a construção das catedrais, as quais, anteriormente, contemplava esmagada pela sua grandiosidade, mas sem me questionar sobre as peripécias que haviam envolvido a sua construção, assim como quem contempla uma montanha, ali colocada por determinação divina ou, quando muito, por capricho geológico.

Aqui, na Europa, são muitas, louvando a Deus, simbolizando o Seu poder numa mescla ténue, com contornos mal definidos com o poder temporal ...
Quanto mais poderoso o rei, mais imponente a catedral...

Repito, após a leitura de " Os Pilares da Terra ", passei a olhá-las com outra curiosidade, com outros olhos.
Na viagem pela Europa que concluí, cruzei-me com muitas e em todas entrei, atraída pelo mistério que encerram, pela mensagem que simbolizam, numa mescla de louvor a Deus e engrandecimento do senhor a quem se deve a sua edificação.



Esta é a Catedral de Clermont-Ferrand, uma cidade industrial em França.
O seu exterior negro contrastando com o colorido da cidade velha, assim como a sua localização elevada atraem todos os olhares, todos os pensamentos, todos os habitantes do burgo, como refúgio físico de categoria divina.


O interior eleva-se em direção ao céu.
A penumbra é quebrada pela luz colorida que atravessa os vitrais.
É gótico, o seu estilo.
Ao espírito é proporcionado o ambiente que entreabre a porta da esperança do paraíso.
O homem não está na terra apenas destinado ao sofrimento e, quando sofre, o templo que o acolhe é apaziguador.



Além disso, há música.
Música celeste que ecoa do majestoso orgão, encimado por colorida rosácea, esperança de festa na vida eterna.



Como se de banda desenhada se tratasse, as cenas bíblicas são reproduzidas assim, aos quadradinhos de cor, fruto do génio de artesãos iluminados e de projetistas que pretendiam congregar a sociedade num espaço.que sendo de culto, era, também, acolhedor e festivo.

Admirar as catedrais, com todo o respeito subjacente pelo que representam, pelo trabalho que envolveram, pela genialidade do homem que sonhou fazendo com que" a obra nascesse", mas também com o olhar curioso de criança que com legos imagina,  faz e desfaz o real absurdo, e vê super heróis onde os adultos vêem apenas figuras sacrossantas, é muito, mas muito divertido.

Beijos,
Nina

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Nos arredores de Bordéus ...


... há um lago.
Nas suas margens, um calmo hotelzinho, sem pretensões, mas agradável e muito tranquilo.
No lago, vivem patos, muitos, famílias inteiras que deambulam ao sabor de inexplicáveis caprichos.
Quando o sol se põe, o lago incendeia-se.
Nesse momento, o mundo para.
O silêncio desce, o ar rosado inebria.
Flutua-se face à harmonia absoluta da natureza.
Os sentidos apaziguam-se, só eu e o lago existimos.
Saio de dentro de mim e observo.
Num nível superior limito-me a ser.
É mágico, divino, sobrenatural.
A mão de Deus toca-nos e liberta-nos.

"Um dia quebrarei todas as pontes...", proclamava Sofia !
Seguramente, num ambiente como este!


Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total
À agitação do mundo irreal
E calma subirei até às fontes.



Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora
E na face incompleta do amor.



Irei beber a luz e o amanhecer
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa
E nela cumprirei todo o meu ser


Beijos,
Nina

domingo, 14 de agosto de 2011

Seguindo para o norte ...

Quem sai de Biarritz e se encaminha para norte, em direção a Bordéus, tem duas opções:
-Ou segue pela auto-estrada, no interior, ou se decide por uma estrada secundária, na marginal do Atlântico.
Escusado será dizer que, para quem passeia sem pressa, a segunda é, de longe, a melhor opção.
Devagarinho, descobrem-se pequenas localidades que privilegiam o veraneio, praias magníficas e restaurantes apetitosos, ruas e ruelas sem automóveis, um clima de férias, de verdadeiro lazer, em que as descobertas vão acontecendo, como que por acaso.
Na cidade de Vieux Boucau, as  artérias pedonais expõem  os "cadeaux", que se deixam admirar pelos passantes.







O único tipo de veículo permitido, em silêncio, aguarda o proprietário...

...que pode, perfeitamente, optar por um tranquilo passeio ao longo do canal,

...ou gastar a manhã na praia, sobre a areia branca, com crianças e cachorros.

O percurso para o areal atravessa uma suave duna,


que se desenrola num areal sem fim , que o mar toca delicadamente.

É linda, a cidade de Vieux Boucau!

Beijos,
Nina

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Biarritz

No sul de França, logo depois da fronteira com Espanha, no País Basco, aninha-se Biarritz, uma baía debruada por palácios, testemunhos de ocupações aristocráticas, pousio de reis, refúgio de perseguidos políticos, quando a monarquia governava o sul da Europa.
Visitei-a no final de Julho.


Grande Hotel, um 5 estrelas anacrónico, na majestade das suas linhas e ferrugem das canalizações.
Em nome de uma absoluta honestidade, devo esclarecer que falo de cor.
Nao me hospedei aqui.
Estou vacinada.
Há tempos, fui a Cuba, na que seria a minha, até aqui única, visita à ilha de Fidel.
O Hotel Nacional, o mais conceituado, mais medalhado, mais rico em história, foi a opcao.
Amplos átrios acolhiam os hóspedes.
Escadarias majestosas ligavam os diferentes pisos.
Quartos quilométricos e sumptosos ofereciam as suas avantajadas dimensoes, alcatifados, decorados com veludos, brocados nas janelas e tecidos preciosos por todo o lado.
Tudo envolvido pelo odor bafiento a velho, gritando por recuperacao profunda.
A meio de um duche, com shampo no cabelo, faltou a água!
Tudo tem o seu tempo...
A praia ao entardecer.
 Um areal agora disputado, ao centímetro,  por locais " en vacances",
pescadores amadores, vendedores ambulantes e desocupados em geral.
O intenso aroma de um gigantesco MacDonald anda no ar...

A vista continua a ser linda, mas falta-lhe alguma coisa para ser convincente, para continuar a servir como reduto de ricos que nós, os comuns dos mortais, adoramos espreitar pela nesga da porta mal fechada.
Ou se calhar sobra-lhe algo ... deve ser a multidão!

Outro ex-edífício de luxo.
Um hotel, talvez!
Lembra-me o filme  Shining onde Jack Nicholson reinava em todo o seu esplendor, em toda a sua loucura ...
Quase consigo ouvir a música de orquestra que escapa dos saloes de baile ...

Mas nao! A música que dancava no ar era a de uma qualquer festa basca.
Todos os bascos se vestiam de branco e vermelho, assim , de uma forma democraticamente plebeia, nas mesmas areias antes pisadas por reis e rainhas.

Biarritz permanecia, até aqui, no meu imaginário como uma lenda que, mesmo sem reis, mantinha a majestade.
Agora, tendo sido uma decepção, é o exemplo vivo daquela lei que, a todo o custo, há que respeitar:
Para manter intactos os sonhos, melhor não os testar, como  quando,ainda criancas, noite adentro, esperamos, a chegada do pai Natal.

Beijos,
Nina

P.S. Ressalvo a falta de acentuacao e cedilhas em várias palavras, erro imputável ao estranho teclado que utilizo.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Rendas


Agora, com este calor infernal que ameaça a nossa floresta, repesquei esta publicação de há vários anos ...



Sempre que à floresta são dadas as condições de desenvolvimento sustentado, ela retribui-nos assim, com um entrelaçado rendado verde, onde dança a luz filtrada do sol e o pensamento voa, se liberta nesta casulo verde, sem paredes nem portas, mas que, mesmo assim nos envolve, nos encerra no seu puro ventre verde.
Quem assim fala, escolhe a praia, os ardores do sol, a impertinência da areia, o vento salgado, o choque térmico das águas marinhas.
Contudo, sempre que me é dado mergulhar neste universo verde, os sentidos aguçam-se, a pele arrepia-se perante o intocável, imaterial, mundo verde, mágico e dominador.
A natureza está aí, pródiga, benevolente, pronta a dar, a criar e recriar com toda a imensa força da sua simplicidade.





Com toda a arrogância do meu minúsculo poder criativo, permito-me afirmar que o meu crochet roubou a forma a e a cor a um pedaço da floresta.
Permitam-me, portanto, que, em bicos de pés, assegure que esta renda é um produto do verde absoluto desta floresta.
No final será uma almofada.
Uma almofada florestal.
É comparar a formiga com o universo, eu sei, mas este é todo o  poder representativo de que disponho.


Beijo,
Nina

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Na Alemanha, na rua ...

Gosto muito da Alemanha como país, das condições de vida que oferece aos seus cidadãos, do seu respeito pela natureza, pelos seus imensos espaços verdes, pela fiabilidade da Miele e da BMW, entre muitos outros aspetos.
Não quer isso dizer que não tenha uma enorme pedra no sapato quando penso noutros detalhes, que vou, por agora, esquecer.
Vou frequentemente à Alemanha e, para minha vergonha, não falo alemão ( ou falo tão mal que é como se não falasse ...) e eles, muito queridos, que falam inglês como segunda língua, recusam-se, frequentemente a fazê-lo, principalmente nas cidades do Norte, o que cria um clima de alguma tensão.
Ultrapasso tudo isso, quando vejo os seus mercados de rua, coloridos, apetitosos, irresistíveis.





Os preços, não são exorbitantes se comparados com os nossos e a oferta é magnífica.
No que diz respeito às flores, são apresentadas como um bem imprescindível, como se de couves ou tomates se tratassem e, por isso, são vendidas aos molhos e assim carregadas para casa.
Acho que tal atitude define um povo.
 A beleza natural não é supérfula, mas essencial no dia a dia.
Porém, o meu lado maquiavélico não pode deixar de referir que esta postura se encontra absolutamente excluída da forma como a maioria das mulheres alemãs desfila a sua feminilidade:
-- Um desastre!
Já sei que não se pode ter tudo, mas um bocadinho de cuidado "às vezes cai bem"!
Cito como exemplo as sandálias alemãs, que são, apenas, os sapatos mais feios do mundo , ostentando os seus proprietários, como cereja em cima do bolo, um par de meias de felpo nas mais diversas tonalidades.
Só visto!
Beijos,
Nina